OPERAÇÃO MAQUIAGEM EVIDENCIA DESPREPARO DE MANAUS PARA SEDIAR COPA DO MUNDO

Diz um velho ditado do jargão do militarismo, incorporado pelo lugar-comum das técnicas administrativas de gestão empresarial, que as oportunidades surgem inesperadamente, e somente aqueles preparados para o imprevisto são capazes de aproveitá-la.

Quando isso não é possível, no entanto, há algumas maneiras de tentar “ludibriar” a sorte e conseguir o objetivo almejado. Na lógica do capitalismo, a mesma que deu margem ao mercadismo desenfreado e que agora colhe os amargos frutos da desregulação moral, o que vale é obter o troféu, não importa a que preço. Ainda que o troféu carregue os elementos de um trabalho, e sem esse trabalho, adquirindo-o por meios out of rules, o troféu não seja mais que um mero objeto.

Assim, a desejada indicação para subsede da Copa 2014 tem movimentado os governos municipal e estadual na cidade de Manaus. Segundo matéria do portal UOL (portanto, em circulação mundial), prefeito (qual?) e governador prepararam uma verdadeira operação maquiagem para que os observadores da FIFA enxergassem apenas o que não existe.

Buracos tapados, sarjetas pintadas, calçamento recuperado, grama aparada, no trecho que cobre o aeroporto Eduardo Gomes até a estrada do turismo, e de lá, até o Tropical Hotel. No trecho das avenidas Constantino Nery e Pedro Teixeira, onde se localiza o Vivaldão, não será necessário, já que os observadores não devem descer do helicóptero que os levará até lá.

Como este bloguinho já observou, os interesses da FIFA quase nunca coadunam com os interesses do futebol. Fosse assim, certamente a peleja já estaria decidida a favor de Belém, onde o futebol profissional existe. No entanto, Ricardo Teixeira e companhia estão mais para Eduardo Braga do que para Ana Júlia Carepa. De qualquer sorte, a questão não está, como pensam os ufanistas manoniquins, fechada.

OS MEIOS E OS FINS

À maioria dos países e cidades que receberam grandes competições, como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas, interessa sobretudo, e tanto quanto ou mais que o espetáculo, o desenvolvimento econômico que é trazido a reboque.

Neste sentido, Manaus poderia afirmar que necessita mais dos investimentos para se tornar subsede do que Belém, já que aquela possui uma infraestrutura de cidade que cá não possuímos, como rede de transporte coletivo que funciona, ruas sem buracos, bairros urbanizados, ainda que tenham também seus problemas.

Mas a questão reside justamente aí. Onde estiveram esses governantes do Amazonas (os mesmos há mais de 20 anos), que somente agora, com a oportunidade de uma Copa do Mundo batendo à porta, falam em desenvolvimento econômico, do futebol e da infraestrutura da cidade? Interessante notar que, bem ou mal, cidades como Belém não esperaram uma copa do mundo para investir num transporte digno, numa infraestrutura de cidade e nas condições para a emersão de um futebol profissional de relevância nacional.

Caso perca a indicação, Belém não sofrerá grandes traumas, e se vencer, igualmente não terá a necessidade de grandes modificações. A oportunidade de sediar jogos da copa casa bem com a estrutura que eles já têm, e caso consigam a indicação, tendência é apenas melhorar aquilo que já possuem.

No caso de Manaus, não há como enxergar a indicação para subsede da copa sem a certeza de que nenhum dos investimentos terá relevância para a melhoria das condições da população. Primeiro, porque os governantes continuam os mesmos, seja no governo, seja na prefeitura, seja na FAF. Segundo, porque a cidade não tem futebol profissional senão como um arremedo, e é injustificável que se precise de uma copa do mundo para que este futebol saia da inanição econômica. Os mesmos responsáveis pela ausência de uma cidade em condições de ser até fiscalizada pelos membros da FIFA são os que pretendem levar a cidade a um novo patamar econômico, caso a indicação venha. Acredite quem puder.

Publicado Quinta-feira, 5 Fevereiro, 2009

Fonte: http://afinsophia.wordpress.com

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